domingo, 20 de julho de 2008

Secreção

Alguém olha pelo vão da porta: algo de estranho ali ocorria. Não sabia identificar aquela transmutação complexa, palavras lhe faltavam. A cena era monumental, esplendida. Por certas vezes brilhavam aqueles olhos observadores. Por outras a face parecia oscilar, como uma flâmula ao vento, mesmo sem sair sequer um sopro de ar daquele antro.

A situação era peculiar. Nada ocorria de tão especial. Alguns movimentos e enfim a tragédia. A porta se fecha e leva consigo aquele olhar pálido. Cai desfalecido aquele alguém tão observador, obcecado, ausente e trêmulo. Torna-se inanimado, como pedra, como montanha... e deixa de ser.

Escorre então a secreção, por debaixo da porta. Nem humana, nem nada. Apenas escorre, é por si só.

domingo, 13 de julho de 2008

Diário de um profeta.

- Hoje acordei bem cedo. Assustado, cheio de pressentimentos quanto ao dia. Respiração ofegante – na certa é mais uma dessas inversões térmicas que vai ocorrer. Fui ao banheiro e naquele espelho não mais podia minha imagem ver: um acidente que viria a ocorrer bem na esquina de casa não saia dali. Maldito destino de profeta. Não consigo nem sequer me ver no espelho – se bem que consigo prever minha figura em apenas alguns instantes de concentração.

Fui à cozinha, e como de praxe minha mãe pergunta-me como será o dia: odeio não ter como fugir do futuro, era tão bom quando ansiava pelo que ocorreria a frente. Respondi de acordo com meu pressentimento inicial do dia, tomei meu café e tossi um pouco. Saio de casa rumando à escola. Atravesso a rua para evitar um acidente que aconteceria bem naquela hora. É nessas horas que meu dom me salva, mas tira completamente meu livre arbítrio da vida. Já não mais posso viver aleatoriamente como as outras pessoas.

No colégio estou dispensado das provas. As professoras já sabem que eu adivinharia todas as questões previamente – mesmo contra minha vontade. Freqüento as aulas só para manter uma vida social. Gosto dos trabalhos propostos, pelo menos os textos são longos demais para que eu me esforce a prever tudo. Sempre converso com meninas diferentes daquelas que estou predestinado a namorar. Sabe como é diário, sempre tento driblar o tempo.

Na volta compro um jornal para meu pai, afinal já disse para ele que não vou ficar adivinhando resultados de jogos de futebol e muito menos os números da loteria da semana. Ele que se contente com o passado do jornal. Não posso fazer tudo o que me pedem. Seria injusto para com muitos. Todos os meus amigos ganhariam na “loto”, ninguém morreria em acidentes e tudo pareceria uma grande conspiração.

Às vezes tento evitar algumas tragédias. Já fiquei bem abalado em certas situações não ter salvado algumas pessoas. Mas não posso ficar mudando destinos. Não cabe a mim essa missão. Nessa tarde, porém, não pude deixar de salvar meu irmão. Por cinco minutos ele não é atingido por um muro que caiu devido ao vento. Sentiria um peso muito grande caso não tivesse o feito.

Daqui a pouco começa o jornal, mas acho melhor já ir deitar. Sempre quando fico com meus pais na sala acabo sofrendo por ter que adiantar as notícias. As pessoas parecem que não sabem devidamente aproveitar o tempo. Deixam de viver o presente para pensar apenas no futuro. Lastimável. Prefiro viver cada coisa em sua vez, sem me preocupar com o amanhã, pois quando o amanhã não mais for chegar saberei com antecedência suficiente...

Boa Noite Diário.

PS: como prometido, não mais adiantarei os dias em suas páginas, ou então daqui uns trezentos anos posso ser visto como um novo Nostradamus.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Relato antropofágico

Entra no consultório ninguém e tira suas roupas em frente ao psiquiatra. Grita. Treme. Salta. Salta. Senta. Olha. Come. Come a própria mão nenhuma. Fuma. Grita. Assusta. O psiquiatra dá seu diagnóstico: mutilação expressa por antropofagia. Corre. Come mãos e mães. Come crianças. Come seu tempo. Queima. Encontra. Encontra Tarsila do Amaral. Corre. Senta e se torna um quadro. Brilha.

PS: a dica do dia! Cuide bem da sua barba, ou a vovó vai se assustar.