sábado, 8 de novembro de 2008

Longo tempo culturamente morto, publico então algo um tanto antigo e lisérgico. Descupas a nenhum leitor (afinal, este blog é restrito a minha própria insignificancia) . Vive, vivemos, vida.

Acidez II

 

Olha que as janelas estão fechadas

Olha que o tempo não mais é

Vê estas flores que não mais são

Sente que nem tudo é plástico

Ouve aquela velha canção do bardo

Adormece acidamente

Acorda em poças de óleo quente

Mil arco-íris nestes céus

Dez dezenas de estrelas cadentes

O marquês fechou a porta

Tira todos os trajes da mala

E sente fluir o ex-tempo, que não mais é

Ouve, dança, flui

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Algébrico

Seguia aquela reta, tangente. Propriedades constantes em todo o domínio, mesmos coeficientes para quaisquer pontos que aceitasse. Seguia. Sigo curvas tangentes a reta. Cruzo pelo caminho certeiro centenas de vezes, por certas vezes até mesmo por rotas paramétricas.

Nem sempre os ajustes de novas equações possuem correlação máxima. Mas usualmente não distam muito do objetivo. Não que isso seja mau, mas certamente se faz necessário (e talvez correto). Tantas estatísticas usadas, tantas definições, como poder obedecê-las simultaneamente?

Pode-se parametrizar o caminho da reta, ou quem sabe deixá-lo continuo por partes. O mesmo com as demais funções que me regem. Posso diferenciar minhas equações em relação ao tempo, integrá-las em diferentes espaços, resolver suas diferenciais.

Mesmo com todas essas possibilidades de trabalhos algébricos não sei por qual equação devo iniciar. Devo integrar todas as funções para um tempo só? Ou então diferenciá-las em espaços? Poderia eu ser parâmetro único, ou necessitaria de mais variáveis independentes?

Múltiplas diferenciais e a reta dista-se das aproximações numéricas. Método de Euler salvador, não mostra a plenitude da precisão pontual, mas possibilita múltiplas soluções que são evidentes. Deixo sem solver mais problemas, até que se aproximem do limite no infinito, quem sabe lá tudo tenda a zero... e assim possa ser feliz.

domingo, 20 de julho de 2008

Secreção

Alguém olha pelo vão da porta: algo de estranho ali ocorria. Não sabia identificar aquela transmutação complexa, palavras lhe faltavam. A cena era monumental, esplendida. Por certas vezes brilhavam aqueles olhos observadores. Por outras a face parecia oscilar, como uma flâmula ao vento, mesmo sem sair sequer um sopro de ar daquele antro.

A situação era peculiar. Nada ocorria de tão especial. Alguns movimentos e enfim a tragédia. A porta se fecha e leva consigo aquele olhar pálido. Cai desfalecido aquele alguém tão observador, obcecado, ausente e trêmulo. Torna-se inanimado, como pedra, como montanha... e deixa de ser.

Escorre então a secreção, por debaixo da porta. Nem humana, nem nada. Apenas escorre, é por si só.

domingo, 13 de julho de 2008

Diário de um profeta.

- Hoje acordei bem cedo. Assustado, cheio de pressentimentos quanto ao dia. Respiração ofegante – na certa é mais uma dessas inversões térmicas que vai ocorrer. Fui ao banheiro e naquele espelho não mais podia minha imagem ver: um acidente que viria a ocorrer bem na esquina de casa não saia dali. Maldito destino de profeta. Não consigo nem sequer me ver no espelho – se bem que consigo prever minha figura em apenas alguns instantes de concentração.

Fui à cozinha, e como de praxe minha mãe pergunta-me como será o dia: odeio não ter como fugir do futuro, era tão bom quando ansiava pelo que ocorreria a frente. Respondi de acordo com meu pressentimento inicial do dia, tomei meu café e tossi um pouco. Saio de casa rumando à escola. Atravesso a rua para evitar um acidente que aconteceria bem naquela hora. É nessas horas que meu dom me salva, mas tira completamente meu livre arbítrio da vida. Já não mais posso viver aleatoriamente como as outras pessoas.

No colégio estou dispensado das provas. As professoras já sabem que eu adivinharia todas as questões previamente – mesmo contra minha vontade. Freqüento as aulas só para manter uma vida social. Gosto dos trabalhos propostos, pelo menos os textos são longos demais para que eu me esforce a prever tudo. Sempre converso com meninas diferentes daquelas que estou predestinado a namorar. Sabe como é diário, sempre tento driblar o tempo.

Na volta compro um jornal para meu pai, afinal já disse para ele que não vou ficar adivinhando resultados de jogos de futebol e muito menos os números da loteria da semana. Ele que se contente com o passado do jornal. Não posso fazer tudo o que me pedem. Seria injusto para com muitos. Todos os meus amigos ganhariam na “loto”, ninguém morreria em acidentes e tudo pareceria uma grande conspiração.

Às vezes tento evitar algumas tragédias. Já fiquei bem abalado em certas situações não ter salvado algumas pessoas. Mas não posso ficar mudando destinos. Não cabe a mim essa missão. Nessa tarde, porém, não pude deixar de salvar meu irmão. Por cinco minutos ele não é atingido por um muro que caiu devido ao vento. Sentiria um peso muito grande caso não tivesse o feito.

Daqui a pouco começa o jornal, mas acho melhor já ir deitar. Sempre quando fico com meus pais na sala acabo sofrendo por ter que adiantar as notícias. As pessoas parecem que não sabem devidamente aproveitar o tempo. Deixam de viver o presente para pensar apenas no futuro. Lastimável. Prefiro viver cada coisa em sua vez, sem me preocupar com o amanhã, pois quando o amanhã não mais for chegar saberei com antecedência suficiente...

Boa Noite Diário.

PS: como prometido, não mais adiantarei os dias em suas páginas, ou então daqui uns trezentos anos posso ser visto como um novo Nostradamus.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Relato antropofágico

Entra no consultório ninguém e tira suas roupas em frente ao psiquiatra. Grita. Treme. Salta. Salta. Senta. Olha. Come. Come a própria mão nenhuma. Fuma. Grita. Assusta. O psiquiatra dá seu diagnóstico: mutilação expressa por antropofagia. Corre. Come mãos e mães. Come crianças. Come seu tempo. Queima. Encontra. Encontra Tarsila do Amaral. Corre. Senta e se torna um quadro. Brilha.

PS: a dica do dia! Cuide bem da sua barba, ou a vovó vai se assustar.


sexta-feira, 23 de maio de 2008

Breve história da eletrônica moderna

O homem, ao sentar em um banco sente algo pulsar em seu peito – não mais um coração – mas sim um celular a vibrar em seu bolso, do lado esquerdo da camiseta listrada. Atende fielmente ao movimento daquele aparelho tão peculiar, olha para aquilo, como se ainda surpreso pela maravilha, e solta algumas palavras de entre os dentes. Então compreende o significado do mundo. Como se apenas um flash tivesse tangido-lhe a face olha ao extremo vultoso do antro em que se encontra. Levanta do banco e corre simplesmente em direção alguma. Ao fim cai por um precipício findando sua vida.

domingo, 13 de abril de 2008

Ausência especial

Ausência especial é o que sinto!

Uma ausência demente,

ausência clemente,

que me toma

e me deixa ausente

ao te ver fora de rumo

em outros campos,

não tão verdejantes.

Sinto uma ausência existencial

como uma falha tectônica.

Tua ausência é o que me toma

e me deixa ausente

Viajando por entre nuvens de súplicas

amanhecendo tardiamente

nada substitui e nada virá a repor.

Sinto uma ausência ausente.

sábado, 12 de abril de 2008

O muro

Passei um mês sumido. Pensei pouco. Escrevi quase nada. Verifiquei que deste 12/03 não produzi nada. Triste. Essa quarta fase que me mata. Bom, serei breve. Aqui está o último lixo que soltei por ai.


O muro

Ao encontrar o muro, olho para trás e vejo nada. Sei que aquela parede não é nada além da minha única visão de mundo. Encontro comigo mesmo, penso sentado em coisa alguma, penso sozinho. Deixo de expor idéias, temo perdê-las. Fico naquele mundo de eu mais eu mesmo. Às vezes tomo algum vinho suave, por outras, apenas uísque. Mas nunca deixo de sentar em frente ao muro branco. Ele é tão luminoso, mesmo em dias chuvosos. É um muro. Inerte. Passam anos e sua pintura não se degrada. Deve ser o ar dessa região muito puro. Ou às vezes até mesmo o clima temperado. Afinal, não sei. Nem me convém saber. Apenas aprecio o muro. Observo alguns tijolos mal assentados, falhas no concreto, enfim, as imperfeições do muro. Apenas observo-as. Não penso em um dia buscar algo, ou mesmo alguém para quem possa retratar minhas observações acerca do muro. Prefiro que ele fique ali, estático. Assim ao menos tenho a certeza que terei aquele muro para olhar no futuro. Não se sabe como as pessoas reagiriam. Temeriam ao conhecer as possibilidades de falha daquele muro. Ou quem sabe temeriam o que pode haver por trás do muro. Prefiro não saber. E mesmo pelo fato de que poucas são as pessoas que vem até aqui para ver o muro. É uma área isolada, sem muita importância econômica. Prefiro deitar e olhar o céu, vai que lá encontro as respostas que o muro também me esconde, ou quem sabe, encontre novas perguntas.

domingo, 2 de março de 2008

Sem nada para dizer hoje, mas com vontade de postar algo.


Chama

A casa pegou fogo, Zé Ninguém se pôs a correr. Gritava, gritava.

- Chama! Chama!

Anistia, sua vizinha, desesperada, em um sopro de alívio ao ver aquela casa pegando fogo libera de entre os dentes:

- Ah! Achei que era pra chamar os bombeiros. Mas é só um fogo, nada demais.

E a casa terminou por tornar-se cinzas.



Método

João em uma tarde a pensar revela a si mesmo:

- Mato Mariazinha e vendo seus órgãos. Assim ficarei rico, e comprarei outro amor.

Eis que na mesma tarde age e, fielmente ao dito compra um novo amor. Períodos de capitalismo sentimental que se sobrepõem e lavam almas, já não mais culpadas por agirem de modo selvagem.

João morre de câncer na consciência seis meses depois.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Pós Júpiter.

Hoje acordei um tanto concreto, cimentado, sonolento de ressaca, nonsense.


Concerto urbano
Ding! Dong!
Bip! Bip!
Tic tac
Tic tac
Slupf!
E as ruas gritam em desespero
Com temor do tráfico
Rá ta ta ta ta!
Morte
Talvez
E as pessoas correm...
Fogem...
E os gases sobem
Carros corrida
Zzzzummm!
Rrrrrr!
Freada
Acidente
Morte
A cidade não é mais a mesma
Puft!

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Psicorelatononsense.

Pois bem, aqui estou novamente. Não em tempo prometido, mas estou aqui, simplesmente. Senti uma profunda vontade de relatar minhas experiências psicodálicas, psicodélicas, lisérgicas. Vim ao Personal Computer (como sempre em dias nublados) e pus-me a redigir algo. O poema publicado na postagem anterior é um sí a essência do que se passou, mas tenho necessidade de relatar em prosa.

Psicodália (em dias, horas e minutos - talvez)


Sexta-feira 01/02/08 23:00 - A tensão aumenta, as malas são verificadas.
Sábado 02/02/08 01:00 - Diego está lá fora conversando com um amigo, ligo para ele e peço que venha para casa buscar as coisas.
Sábado 02/02/08 01:30 - Rumamos ao ponto de ônibus onde tomamos cervejas e entramos no clima festivo.
Sábado 02/02/08 04:00 - Nosso ônibus parte do centro de Florianópolis.
Sábado 02/02/08 (horas longas dentro de um ônibus, que não chega nunca a São Martinho) - Laricas, conversas, papo furado, vida nonsense.
Sábado 02/02/08 10:00 - Chegamos ao paraíso na terra. (daqui em diante não sou capaz de relatar datas, horários, vidas, sinestesias, metalografias, riachos cristalinos, céu furta-cor, não relato mais nada em perfeito estado de sanidade).

Eis que começa o grande evento! Riachos que realmente lavaram a alma. Sol e chuva nos dois primeiros (e eternos) dias. Comidas alternativas na fogueira, pães assados, lisergia. Era tudo de uma harmonia tão plena que não havia do que queixar-se. Uma energia inexistente em qualquer outro ponto da terra. Alternatividade, pessoas felizes, paz. Para que desejar algo mais sublime que isto? Realmente, como diria a letra daquela música de Júpiter Maçã - Um Lugar do Caralho - realmente! Felicidade por vários dias. Logo já estava habituado a rotina daquela vida. Tudo era estabelecido como se ali estivessem todos há vários anos. Sou capaz de jurar que não foram só quatro dias (mas sim 16 ou 17 anos) - Incrível!

Rodas de música! O lendário Plá - líder espiritual do evento - com sua viola e todas aquelas idéias de uma loucura por si só, sem nada que a gere. A loucura primordial. Parei pra pensar, não é que ele está mesmo certo! Dias que não voltam mais, mas ouso a viver eles ainda (mesmo não mais lá estando). Ideais não se fazem apenas naqueles dias, mas sim continuamente na vida. è assim que devemos ser, não é mesmo?

Loucuras, loucuras, lisergia. Que relatar? Não sei. Só vivendo aquilo para saber. espero que em breve venham mais momentos-reunião como aqueles. Estamos com idéias de promover um evento de cultura alternativa na UFSC e depois um de maior porte em algum lugar da ilha! Vamos em frente com nossos ideais!

Que Woodstock ressuscite!


Foto do riacho que passava em meio ao Psicodália

E para finalizar por hoje ai vai um poema recente meu.

Solaridade

Imagens fúteis e luminosas

que se fazem na consciência

do homem não humano

e perfuram seu coração.

Imagens de um sol não mais tão claro,

nem tão brilhante

como antes fora.

Desilusão,

e re-ilusão.

Domina a mente já não mais cega

ao que já dominou.

Já não mais o que fora,

não mais nada,

ou tudo que poderia ser.

Uma solaridade opaca,

demente, dominadora,

mas que não ofusca

por seu tom ocre,

As vezes amarelo-ocre-claro-dourado

das telas passadas.

Mas sem uma solaridade em si.

Solaridade tangente pela esquerda

como faca afiada ao cortar a retina

que já não mais via o brilho,

agora já não existente,

mas ansiava por vê-lo novamente.

Uma solaridade assim, tão demente

que toma o homem, não mais humano,

mas o homem monstro, o selvagem

que não mais vê aquele raio de sol.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Sobrevivi!

Pois bem, neste inútil e breve intervalo entre aulas venho para casa e resolvo publicar algo. Não que isso seja necessário, mas é uma alternativa ao tédio deste horário. Vou aqui postar um poema, breve em sua essência, relatando de certa forma minha utima viagem (incríveis momentos). A noite, quando tiver tempo suficiente deixo um relato das minhas experiências Psicodálicas. Até breve.

Lucis

Rios de solaridade lambem a alma

e lavam a putrefeita criatura

Pedras ásperas, de felicidade campestre

Correntezas de insanidade

dias legalmente dementes

sem malícias, sem concreto

de verde esperança comunitária

e compartilhamento de bens

psicotrópicos, ou não

Uma luz que não ofusca a visão

com tons matutinos próprios,

capuzes amarelos

gravatas azuis

psicodelismo.



E como não podia faltar, uma foto do evento Psicodália 2008, São Martinho.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O Início.

Hoje, uma chuvosa Quinta-feira de Janeiro (a ultima do mês), sem nada mais para fazer, em uma ansiedade tremenda pelos próximos dias de Psicodália surge aquela idéia: vou iniciar outro Blog. Meu outro Blog coitado está morto (se bem que eu jamais divulguei aquele pobre Blog), então como uma nova idéia "pari" esta página, com um intuito de passar minhas idéias, reflexões, histórias, poemas e cotidiano de estudante universitário.
Espero que gostem e frequentem esta humilde página. Farei novas publicações sempre que possível (quando a quase "nada" puxada rotina da engenharia me permitir).

Como início acho que seria interessante contar um pouco sobre mim (o sujeito estranho por trás do teclado barulhento). Bem, sou algo excêntrico, sem muitas preocupações com a visão da sociedade sobre mim. Vivo como vivo, as vezes mais como um hippie maluco (no caso dos próximos cinco dias), as vezes mais como um engenheiro que porta-se com certos critérios, preocupado com o que será após o fim da formação acadêmica (não que isso me incomode). Posso dizer que sou libertário em excesso, não vejo o porquê de tanta repressão sobre os atos das pessoas e creio num mundo "raul-seixista", onde "há de ser tudo da lei". Sou perfeccionista por excelência, e sempre saliento isso. Apesar de todas as minhas atitudes nada ortodoxas prezo pelas coisas com qualidade em si (seja por realização efetiva das coisas, seja pelo acabamento, seja pela aparência de coisas). Mas não é por isso que posso ser taxado como um "padronizador" de mundos. Pelo contrário, gosto de coisas um tanto caóticas (se bem que todo o caos deve ser matematizável). Quanto ao resto, ah, é apenas o resto, não que isso não importe, mas minhas palavras não dizem o bastante. Essa linguagem falha da qual nos utilizamos não pode ser suficiente para tudo, não é mesmo?

Finalizando, posto aqui um texto-crônica-insano que redigi há algum tempo. Passo meu tempo livre escrevendo coisas "nonsense" e as vezes acabo viajando muito em idéias. (preciso passar a escrever menos, as vezes penso que estou pirando mesmo!)

Ai vai!

Noite de bar

-Garçom, sirva-lhe um conhaque que a noite há de ser longa como pétalas de margaridas do campo, com toda a graça de um beija-flor tangenciando-lhe as bordas.

E foi assim que Anônimo Pereira conheceu Sem-nome Gonçalves numa noite no bar de Zé Anonimato da Silva (brasileiro natural de Lugar Nenhum, sem anos), e comemoram seus desencontros pelas ruas ambíguas da vida.

Anônimo cortejava Sem-Nome crente que a levaria para a cama na primeira noite de encontro (como típico da maioria dos brasileiros, anônimos, como ele). Pedia tequilas e uísques, sem contar que lhe restavam poucas notas no magro bolso, saudosista dos tempos da inflação do Cruzado. Sem-Nome risonha como uma ave pesqueira ao avistar um cardume provocava-o veementemente, diretamente fitando-lhe os olhos, com o ardor de uma pomba nova.

O tempo passava e o casal aproximava-se exponencialmente, eis que Anônimo tangencia os lábios de mel (já um pouco ressecados por causa do cigarro) de Sem-Nome. O ato do beijo estende-se durante boa parte da madrugada, até que Zé Anonimato requisita aos pombinhos (que já aparentavam estar em núpcias) que parassem por ali a cena, visto que estavam iniciando o ato mais profundo de remover as roupas (típico entre seres humanos, na maioria dos casos maiores de dezoito anos e de sexos opostos entre si, apesar de que nem sempre coisas são assim), e beijarem em locais menos apropriados para a ocasião.

Anônimo revolta-se contra o Anonimato, e reage, revolto, embriagado, (típico brasileiro desempregado em noites de sextas-feiras), dizendo que apenas agia por paixão, amor ardente, e que queria preservar sua imagem, mesmo com a ocasião - imagem essa que a maioria dos freqüentadores do tal bar já sabiam não ser muito idônea – e prossegue ao balcão, puxando Sem-Nome pela entrada sobre o ombro (que a má alimentação causara naquela figura, ressalto aqui, tipicamente brasileira, nordestina, interiorana).

No balcão, Anônimo saca sua carteira e puxa as poucas notas de Real que lhe restavam, vale dizer que eram notas rascunhadas, rasgadas e putrefeitas, como a maioria das cédulas do dinheiro de nosso tempo. Anonimato, em tom já um tanto furioso, fita Anônimo e lhe requisita que dê imediatamente o restante do dinheiro para pagar a conta, visto que aquelas poucas notas não eram suficientes para sanar a dívida de bar.

Sem-Nome manifesta-se e seduz Anonimato, mesmo em frente a Anônimo, que fica perplexo. Tudo como poderia se esperar de um casal brasileiro sem “bufunfa”, sem lar, sem nada. Anonimato em um ato selvagem (selvagem até mesmo para um bar como o de sua posse) leva Sem-Nome para o quarto imundo que se conectava ao salão principal do bar.

Anônimo sai cabisbaixo do recinto e segue pela rua.

Nisso berros são ouvidos do bar:

- Ela era só uma prostituta (coisa típica de anti-contos-de-fadas brasileiros).

Anônimo cai pela sarjeta e ali dorme, visto que era um desabrigado miserável, como a maioria dos brasileiros deste tempo.